segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Corridas e o coração

Um dia comçamos a correr e descobrimos que o nosso corpo é capaz de muito mais do que imaginávamos. Primeiro 5km parece uma distância enorme que ficamos orgulhosos de superar com facilidade. Depois movemos para 10Km, meia maratona e maratona. E quando completamos uma maratona nos julgamos atletas acima da média, ou melhor, acima de 90% da população. Mas acima em termos de quê? De condicionamento, saúde, resistência, dieta saudável, vida saudável, velocidade, muitas coisas. Diferentes pessoas pensem de forma diferente, o que faz nascer o famoso debate do "porque você corre?", mas parece que saúde é de longe o que julgamos sermos melhorers, afinal se conseguimos correr uma maratona temos que ser mais saudáveis. E os corredores acreditam na saúde como acreditam que são livres, como acreditam no voto e na igualdade do ser humano, acreditam religiosamente, sem provas, levados pela propaganda e pelo desejo de viver eternamente, talvez, ou talvez simplesmente pelo desejo de ser melhor em algo.

Certamente o maratonista não corre pela saúde, e lá no fundo ele sabe disso. Em 2007, quando terminei a minha última maratona, estava tão cansado e vendo outros igualmente cansados, embrulados naqueles papéis alumínio para não perder calor (estava meio frio), que a alegria de ter quebrado meu recorde pessoal foi muito menor do que a vergonha de não saber porque eu estava fazendo aquilo, porque eu estava acabando comigo mesmo. Me senti uma Maria-vai-com-as-outras, levada pelo círculo vicioso do mundo ao redor. Decidi que não correria mais maratonas, e assim tem sido até hoje, e assim vai ser. Mas não parei de correr, diminuí a distância, estava em busca de algo que fosse realmente saudável e que desse prazer. Mas prazer de verdade, não prazer de falar para os outros.

Me preocupei mais e mais com o que seria realmente saudável e descobri que existe evidências de que exercicio é algo bom, mas não correr especificamente. E as evidências são bastante escassas para consequências de longas corridas e alta intensidade. Mas eu estou apenas dizendo que não existe evidências, não que não seja saudável, e que a não existência de evidência torna o fato religioso, eu acredito nisso e você acredita naquilo, apesar que não há nada de errado em acreditar, e se fôssemos esperar evidências para tudo ficaríamos dormindo o dia todo. Só que temos que ser conscientes do que acreditamos e do que sabemos.

Os fatos me levaram, ou talvez me obrigaram, a coletar evidências que correr pode sim ser ruim, ou ter consequências negativas. Desde 2011 eu tenho notado publicações científicas relacionadas à associação entre correr longas distâncias e o risco aumentado de arritmias cardíacas. Hoje ainda não há provas definitivas mas o número de artigos publicados me faz não ter dúvidas de que se você é um corredor de longa distância, vc tem sim chances bem aumentadas de vir a ter arritmias cardíacas e outras alterações não necessariamente boas no coração.

Foi depois de ler esse artigo que resolvi escrever isso. O artigo não é uma evidência esporádica, é o resumo do que se tem hoje em termos de associação entre uma arritmia especifica, a fibrilação atrial, e a prática de esportes de alta resistência, com base em muitos estudos no decorrer dos anos. Enfim, a verdade é que temos associações e que sabemos muito pouco. A verdade para mim é que exercícios físicos nem sempre são sinônimos de saúde, e cada vez mais eu fico convencido de que a quantidade de exercícios que precisamos para que aumentemos a nossa saúde, seja lá qual for a definição de saúde, não nada perto do que um maratonista faz, nem mesmo do que um corredor de 10Km. Ainda sabemos muito pouco e fazemos muitas coisas erradas...

Nenhum comentário: